Após um comício espetacular para milhares de pessoas onde dera mostras incontestáveis de suas qualidades, um certo líder emergente no cenário político da cidade foi abordado por um também emergente “aspirante a raposa política”.
A palavra do estranho líder comovera. Parecia, enfim, que discurso e orador era uma coisa só. Não havia papel com notas a consultar. Seu verbo fluía e encantava.
Homens entreolhavam-se e perguntavam-se mudamente com a surpresa e o sorriso desenhados na face: - “Será que enfim temos um líder de verdade?” Mulheres que sempre seguiram seus maridos com as crianças pela mão, sentiam com seu olfato humano inigualável no ar o cheiro da novidade: - “Nunca ouvimos algo assim antes!”
O aspirante disse então:
– Amigo – indagou, exultante –, você parece realmente trazer novidade. É porta-voz de algum Grupo Forte?
– Sim – respondeu ele, sem, titubear.
– Qual a plataforma política, quais as propostas de seu Grupo? – prosseguiu ele, encompridando a conversa.
– Constam de obrigações de trabalho para todos.
Meio inquieto, o “raposa” coçou a testa com a mão direita e continuou:
– Mas, espera aí. Haverá uma organização hierárquica, não é?
– Ué? Como não? – disse o líder, sorrindo.
– Ah! E qual será a função da elite hierárquica?
– Será de fazer melhorar os piores.
– E qual será a ocupação dos mais inteligentes, meu amigo?
– Será a de, em tudo, agir para instruir os ignorantes.
– Mas, e os bons? Que que vai fazer o “pessoal bom”... Sabe? AQUELE pessoal... Dentro desse novo sistema?
– Bem, como estes são os modelos que temos, eles vão ajudar aos maus para que estes se tornem igualmente bons.
– E qual a tarefa da elite financeira?
– Ah, estes vão amparar os mais pobres para que eles também se enriqueçam de recursos e conhecimentos.
– !!!?(...)
– Meu caro – tornou o “raposa”, já desapontado –, e o que vai garantir semelhantes normas?
– Claro que só pode ser o desejo que todos dizem ter pelo Bem Comum! Isto vai florescer em obras de progresso na vida de todo mundo.
– Companheiro, e quem vai fiscalizar o funcionamento desse regime?
– Bom, não será alguém em particular, mas, sim, todos em geral, pela responsabilidade que cada um de nós tem em si, pelo mundo em que vive.
– Meu prezado, como tudo isto é estranho! – considerou ele, alarmado – você quer dizer que o Sistema a ser implantado vai dispensar acomodações especiais para dirigentes, forças de segurança, sistema penal rigoroso e impostos?
– Sim, claro! Tudo isso será dispensável porque o espírito de renúncia, de trabalho, de humildade, de paciência, de fraternidade, de sinceridade e, sobretudo, da solidariedade de que somos credores uns dos outros, agirá tão fortemente a ação do bem na esfera de cada um que trará a todos o desprendimento da posse material, criando novo fundamento da Justiça, até agora desconhecido no mundo.
Nesse instante, justo na hora que a multidão desocupava a imensa praça onde se dera o comício tomada de intensa alegria, o destacado lobista, “aprendiz de raposa”, olhando o líder de alto a baixo, mostra grande sarcasmo na face e dá as costas ao líder acompanhado pelos seus seguidores dizendo insultos e zombando...
– Louco! Esse vai acabar comendo cocô.
– Deus me livre...
– Vejam em quem o povo acaba acreditando... Eu hein!
P.S.:
O líder emergente era filho de José, o carpinteiro de Nazaré da Galiléia.
O comício foi feito num monte.
Durante o comício foi distribuído, gratuitamente, um lanche que ninguém sabe de onde saiu.
O aspirante a “raposa política” é... Bom, pode apontar quem quiser do cenário político de Rondônia, a possibilidade de erro é mínima.
O diálogo, salvo as adaptações, está no livro “Contos e Pontos” do Irmão X
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