sexta-feira, 22 de abril de 2011

POLÍTICA, LIDERANÇA, VERDADES

Após um comício espetacular para milhares de pessoas onde dera mostras incontestáveis de suas qualidades, um certo líder emergente no cenário político da cidade foi abordado por um também emergente “aspirante a raposa política”.
A palavra do estranho líder comovera. Parecia, enfim, que discurso e orador era uma coisa só. Não havia papel com notas a consultar. Seu verbo fluía e encantava.
Homens entreolhavam-se e perguntavam-se mudamente com a surpresa e o sorriso desenhados na face: - “Será que enfim temos um líder de verdade?” Mulheres que sempre seguiram seus maridos com as crianças pela mão, sentiam com seu olfato humano inigualável no ar o cheiro da novidade: - “Nunca ouvimos algo assim antes!”

O aspirante disse então:
– Amigo – indagou, exultante –, você parece realmente trazer novidade. É porta-voz de algum Grupo Forte?
– Sim – respondeu ele, sem, titubear.
– Qual a plataforma política, quais as propostas de seu Grupo? – prosseguiu ele, encompridando a conversa.
– Constam de obrigações de trabalho para todos.
Meio inquieto, o “raposa” coçou a testa com a mão direita e continuou:
– Mas, espera aí. Haverá uma organização hierárquica, não é?
– Ué? Como não? – disse o líder, sorrindo.
– Ah! E qual será a função da elite hierárquica?
– Será de fazer melhorar os piores.
– E qual será a ocupação dos mais inteligentes, meu amigo?
– Será a de, em tudo, agir para instruir os ignorantes.
– Mas, e os bons? Que que vai fazer o “pessoal bom”... Sabe? AQUELE pessoal... Dentro desse novo sistema?
– Bem, como estes são os modelos que temos, eles vão ajudar aos maus para que estes se tornem igualmente bons.
– E qual a tarefa da elite financeira?
– Ah, estes vão amparar os mais pobres para que eles também se enriqueçam de recursos e conhecimentos.
– !!!?(...)
– Meu caro – tornou o “raposa”, já desapontado –, e o que vai garantir semelhantes normas?
– Claro que só pode ser o desejo que todos dizem ter pelo Bem Comum! Isto vai florescer em obras de progresso na vida de todo mundo.
– Companheiro, e quem vai fiscalizar o funcionamento desse regime?
– Bom, não será alguém em particular, mas, sim, todos em geral, pela responsabilidade que cada um de nós tem em si, pelo mundo em que vive.
– Meu prezado, como tudo isto é estranho! – considerou ele, alarmado – você quer dizer que o Sistema a ser implantado vai dispensar acomodações especiais para dirigentes, forças de segurança, sistema penal rigoroso e impostos?
– Sim, claro! Tudo isso será dispensável porque o espírito de renúncia, de trabalho, de humildade, de paciência, de fraternidade, de sinceridade e, sobretudo, da solidariedade de que somos credores uns dos outros, agirá tão fortemente a ação do bem na esfera de cada um que trará a todos o desprendimento da posse material, criando novo fundamento da Justiça, até agora desconhecido no mundo.

Nesse instante, justo na hora que a multidão desocupava a imensa praça onde se dera o comício tomada de intensa alegria, o destacado lobista, “aprendiz de raposa”, olhando o líder de alto a baixo, mostra grande sarcasmo na face e dá as costas ao líder acompanhado pelos seus seguidores dizendo insultos e zombando...
– Louco! Esse vai acabar comendo cocô.
– Deus me livre...
– Vejam em quem o povo acaba acreditando... Eu hein!


P.S.:
O líder emergente era filho de José, o carpinteiro de Nazaré da Galiléia.
O comício foi feito num monte.
Durante o comício foi distribuído, gratuitamente, um lanche que ninguém sabe de onde saiu.
O aspirante a “raposa política” é... Bom, pode apontar quem quiser do cenário político de Rondônia, a possibilidade de erro é mínima.
O diálogo, salvo as adaptações, está no livro “Contos e Pontos” do Irmão X

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Drama em Realengo no dia 7 de abril de 2011


Conforme dados coletados em saites da internete, no dia 07 de abril, quinta-feira, por volta das 8h, Wellington Menezes de Oliveira, rapaz de 23 anos entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo-Rio de Janeiro, e matou doze crianças, deixando onze feridas e 10 outras internadas em hospitais. Detido por policiais, ainda durante o atentado, cometeu suicídio após ser ferido.
Estupor. Pânico. Incompreensão generalizada.
Em meio ao desespero, dor, revolta e grande clamor estabelecidos as respostas trazidas pela mídia jornalística são muito pobres. A tecnologia em mãos da mídia é capaz de mostrar o sangue borbulhando da ferida em espetaculares coberturas, mas, tem se mostrado incapaz de achar alguém com uma resposta satisfatória do “por quê” de uma coisa dessas, com a mesma velocidade em que faz a exibição. Informar sem refletir satisfatoriamente é perigosamente cruel. A sociedade, como um grupo social que é, precisa de tempo para processar e responder. A mídia, ao informar, faz o corpo social tomar ciência do fato, mas ao estender a informação incessantemente por três dias produz uma impressão de continuidade como se o drama não tivesse acabado! Quem vê a notícia desde o primeiro momento pode acabar levando uma carga danosa ao seu tecido emocional. Não se pode contribuir para estabelecer a sensatez se não permitirmos que a reflexão acomode o fato nos espaços possíveis da compreensão. E, certamente, o repisar dos fatos em improvisadas e sucessivas intervenções ao vivo não ajuda em nada.
Ainda assim, contudo, a sociedade ferida foi capaz de, apenas dois dias depois, se unir para abraçar simbolicamente a Escola, homenagear mortos, feridos e de fazer orações. Isto é o primeiro sinal da compreensão, mostra o pensamento social apurando o foco ao isentar a instituição escolar de responsabilidades. O muro da escola, transformado em altar votivo, com flores, velas, fotos e mensagens para as vítimas, é prova disso. Algumas famílias, as mais serenas, sinalizaram um exemplo de mais ampla superação pela solidariedade com que doaram os órgãos dos mortos na tragédia. Muito embora ao lado destas manifestações tivéssemos a pichação da casa dos familiares do infeliz rapaz, autor da tragédia, o saldo é bem positivo, pois mostra o direcionamento das ações no sentido do bem social pelo bem que se restabelece, aos poucos, nas famílias.

Para amorosos pais e mães, parentes e amigos das crianças atingidas, será impossível encontrar agora uma palavra de consolo que lhes acalme o coração. Porque o processo desta dor, que nasce da punhalada no peito amado, caminha pela estrada da mágoa desde aí até a compreensão cicatrizá-la misteriosamente no nosso peito. Aí, a dor abandona a mágoa e sua trilha espinhosa para a resignação consoladora dentro da qual até poderá evoluir para o conforto do perdão – algo para o que a alma demanda um tempo.
As almas maltratadas por tragédias tão fortes assim demandam de nós ações solidárias, mas muito mais gestuais do que de outra natureza. É aquele “estar junto”, aquele segurar a mão amiga e enxugar a mágoa do coração ferido com o próprio coração. Lembro-lhe, querido leitor, de uma situação onde um homem absolutamente reto e inocente viu, igualmente, o mundo desabar sobre si. De uma só vez ele recebeu a notícia do trucidamento de sua família querida e da espoliação de todos os seus bens materiais. E, ainda quedado sob este grande estupor, perde totalmente sua saúde. Então, desnorteado sob tamanha aflição ele recebeu o apoio de três amigos sinceros que a ele acorreram tão logo souberam do mal. Tratam-se de Elifaz, Bildad e Zofar os bíblicos amigos de Job que, quando viram o estado dele, “não o conheceram; e levantaram a sua voz e choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao ar. E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande”. (Job 2-12;13)

Contudo, é preciso confiar.
É preciso confiar na vida como uma obra perfeita, mas daquela perfeição possível às coisas em permanente construção.
É preciso lembrar que o tempo a tudo explica satisfatoriamente, fato que exige de cada um de nós nos segurarmos, embora aflitos, nos limites escuros da ignorância em que ainda estamos a respeito deste fato, sobre o qual não houve tempo para se fazer a luz para o entendimento libertador.
É preciso entender e louvar os valores de D. Dicéa que foi capaz de acolher um menino doente, filho de mãe doente, e ajudá-lo a construir-se socialmente, sustentando-o até sua morte. Tendo ela, inclusive, encaminhado o rapaz com transtorno bipolar ao tratamento – que poderia auxilia-lo na manutenção de um mínimo de saúde – ao qual ele abandona por livre vontade.
É preciso admitir que a sociedade é feita pelos que não carecem de nada e pelos que precisam de ajuda; pelos que auxiliam e pelos que não o fazem; pelos que consentem ser ajudados e pelos que se negam a receber socorro; porque o arbítrio conquistado pela humanidade faz cada um conforme sua escolha.
É preciso aceitar que nossa sociedade é feita dos melhores como também dos piores, mas que a grande maioria dela não é nem melhor nem pior. Porque o grosso da humanidade é um contingente limitado pela angelitude de um lado e pela satanice de outro. O primeiro limite é o patamar para onde o tropismo do Bem nos leva pela evolução e, o segundo limite, é tudo o que precisamos descartar para nos configurarmos na angelitude.
É preciso decidir-se pelo Bem, enquanto pessoa, para que esta adoção se generalize e configure o Bem como característica do corpo social que formamos. E o Bem nunca poderá ser algo que só faz bem a mim, será sempre algo comunal, nem que a comunidade seja só de duas pessoas.
É preciso não perder de vista que, o mal que nos acontece é resposta de ações do nosso passado e, por vezes, de um passado tão remoto que não lembramos, mas, do qual não deixamos de ser responsáveis. Por isso, então, é preciso construir este presente sem nenhuma eiva deste mal que feriu tanto a tantos, direta ou indiretamente.
Neste instante, se não pudermos sepultar este mal sob a laje do perdão, pelo menos o isolemos em compartimento seguro para uma consideração posterior porque, corações magoados clamam por “justiça” quando na verdade querem dizer “vingança”. É revolta pura e simples. É a revolta perfeitamente explicável dos corações feridos. É o sentimento que nos enche de fel e nos faz desejar apenas “olho por olho, dente por dente”.
A revolta não tem juízo. Ela é tão impiedosa quanto o assassínio. A revolta não tem misericórdia porque só contempla a extensão de um lado da miséria. Há muitas mães de filhos assassinados que se consideram miseráveis pelo que lhes aconteceu, mas que sentimento terá a amorosa mãe de um filho assassino? Neste caso de Realengo é preciso considerar a miséria da mãe, a falecida D. Dicéa – que não pode acompanhar mais tempo o seu filho adotivo; a miséria dos familiares de Wellington – que se escondem medrosos e envergonhados de dizerem que o são; e, por fim, a miséria do próprio Wellington cujo corpo, até sábado, dia nove, ninguém reclamara para sepultamento.
Tomemos tento, queridos amigos.
Estendamos nossa misericórdia.
Dilatemos nosso coração porque, neste “vale de lágrimas” não há um só de nós que possa dizer que dela não precisa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

REVOLTA SOCIAL EM PORTO VELHO


Desde seu licenciamento que a obra das Usinas do Madeira mostra ter um caráter sonso. Os fatos gerados em torno do empreendimento são sempre confusos e indefinidos no geral.
Uma suspeita atrás da outra tem sido levantada a respeito das mortes acontecidas no canteiro da obra e que não vejo reportada por ninguém. Outra coisa nebulosa é a natureza dos tratos contratuais realizados com os peões, a respeito de salário e vencimentos. Muita gente se queixa de que dizem uma coisa e fazem outra.
Nomes de empresas como Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht e Camargo Correia se carimbados na Carteira Profissional, é razão de orgulho pra qualquer peão de trecho - como eu já fui. E estas empresas, cujos padrões de excelência as levaram para a realização de obras no exterior, estão aqui. Como é que, de repente há uma bagunça dessas? Não haverá uma política da empresa para o trato dos Recursos Humanos que seja boa para a peãozada? No sul do país não sabem direito nem onde fica Rondônia, se a capital é Rio Branco, se nos situamos perto da “Cabeça do Cachorro”... Será que, igualmente, erraram na política de recursos humanos a adotar para esta obra?
Será que o nome "Consórcio" é um modo de grandes empresas se escudarem, ou se esconderem, de parte de suas responsabilidades?
Essas comoções sociais não acontecem por influência bandida, não. Mas, muitas vezes elas podem e são aproveitadas por bandidos infiltrados na leva que vem trabalhar na obra. Eles se aproveitam da massa descontente para sugerir as ações de pilhagem que lhes permita "colher" os frutos. Não tem esconderijo melhor para quem está bandido mesmo do que no meio de uma massa revoltada, descontente. Mas, eles não geram o descontentamento da massa. Isso não. Isso é contra toda a Ciência Social formada e provada, cientificamente, em torno de fenômenos assim. O procedimento das empresas, desde a divulgação das primeiras vagas para contratação, é sonso. Nas fachadas dos seus escritórios não há placas indicativas da empresa em questão, não há divulgação de telefones comuns para acesso a informações, e todo o acesso ao canteiro de obra para qualquer outro fim que não seja o trabalho, é rigorosamente controlado.
Cientista social que sou, enxergo, nesse episódio dado em Jirau, um erro administrativo grave no procedimento das empresas por trás do "Consórcio", que gerou o descontentamento de um contingente social considerável. Contingente esse que está recluso nos limites da obra, lugar em que não há sequer um arremedo de instituições sociais para atenderem as necessidades fundamentais da pessoa humana – mesmo sendo em Rondônia – que são: moradia, alimentação, educação, saúde e segurança, já que o trabalho está garantido.
As autoridades estaduais e municipais envolvidas estão omissas desde o princípio dessa história quando validaram os documentos sobre Impacto Ambiental - EIA e RIMA - apresentados pelo Consórcio, para o que a comunidade acadêmica e outros estudiosos haviam torcido o nariz. Ficaram omissas ao longo do tempo em que ocorreram estes fatos – que não são de hoje. E, hoje, estão imersas em estupor diante deles.
Precisamos das Usinas do Madeira? Sim, sem dúvidas. Mas elas não têm de ser construídas sobre mortes acidentais não legitimadas por registro oficial, nem baseados em contratos que estabelecem o vilipêndio em vez de justiça.
Há atos criminosos a investigar, sim. Há bandidos para serem presos, sim. Mas, há alguns dentre eles que nem sequer estão nas ruas mas que estão nas nascentes desta revolta. 

terça-feira, 8 de março de 2011

CARNAVAL



Vejam que oportuna colocação está feita no "Dicionário Informal" a respeito desta festa sobre a qual já postamos uma matéria neste blogue. No final, tem o link do dicionário para seguir no twittwer.
Aproveitem!


Carnaval - 06/03/2011


Corruptela do latim "CARRVM NAVALLIS". Na Antiguidade, os desfiles públicos oficiais eram restritos às conquistas guerreiras, recontatadas de forma alegórica, enquanto os desfiles festivos, eram de cunho religioso ou mitico, como as Satúrnias, que acabavam, inavariavelmente, em muito sexo (Por isso, essa confusão literal de "Festa da Carne"). Com o passar do tempo, houve fusões e influencias de outras culturas mediterrãneas, mas o sentido de "corso" e "desfile" se manteve, sempre com a presença dos "Carros Navais", mais tarde, denominados genéricamente de "Carros Alegóricos". PS: Qualquer foto de Carnaval Antigo do RJ, voce vai ver os tais "Carros Navais", com marinheiras trajadas em listras e "embarcadas" em cima dos "calhambeques" enfeitados com mastros e fitas.

O caminho da corruptela do original, foi esse: CARRVM NAVALLIS CARRVMNAVALIS CARRVNAVALIS CARRNAVALIS CARANAVALIS CARNAVAL


DICIONÁRIO INFORMAL: http://twitter.com/DinFormal

segunda-feira, 7 de março de 2011

Origem Do Carnaval


Das festas populares do Brasil, o Carnaval é, sem dúvidas, a mais grandiosa delas e uma das poucas manifestações folclóricas que ainda sobrevivem e conseguem envolver o grande público.
A história do Carnaval começa há mais de 4 mil anos antes de Cristo, com festas promovidas no antigo Egito, como as festas de culto a Ísis. Eram principalmente eventos relacionados a acontecimentos religiosos e rituais agrários, na época da colheita de grandes safras. Desde essa época as pessoas já pintavam os rostos, dançavam e bebiam.
Há também indícios que o Carnaval tem origem em festas pagãs e rituais de orgia. Em Roma, as raízes deste acontecimento estão ligadas a danças em homenagem ao Deus Pã e Baco, eram as chamadas Lupercais e Bacanais ou Dionísicas.
Com o advento da Era Cristã, a Igreja começou a tentar conter os excessos do povo nestas festas pagãs. Uma solução foi a inclusão do período momesco no calendário religioso. Antecedendo a Quaresma, o Carnaval ficou sendo uma festa que termina em penitência na quarta feira de cinzas. Os cristãos costumavam iniciar as comemorações do Carnaval na época de Natal, Ano Novo e festa de Reis. Mas estas se acentuavam no período que antecedia a Terça-feira Gorda, chamada assim porque era o último dia em que os cristãos comiam carne antes do jejum da quaresma, no qual também havia, tradicionalmente, a abstinência de sexo e até mesmo das diversões, como circo, teatro ou festas.
No Corso, os carros abertos desfilavam nas principais ruas das grandes cidades. De acordo com o calendário gregoriano, utilizado oficialmente na maior parte do mundo, o Carnaval é uma festa móvel porque é indicado pelo domingo de Páscoa, também uma data comemorativa móvel para que não coincida com a páscoa dos judeus. Para saber em que dia cairá as duas festas, determina-se primeiro o equinócio da Primavera (no Brasil é Outono). Não se pode esquecer que o calendário segue as estações do ano de acordo com o hemisfério norte, onde foi criado. O primeiro domingo após a lua cheia posterior ao equinócio da primavera é o domingo de Páscoa. Face a essa regra, o domingo de carnaval cairá sempre no 7º domingo que antecede à Páscoa. A quaresma tem início na quarta feira de cinzas e como o próprio nome diz, tem duração de 40 dias.

Publicado em: 11/01/2009

O QUE É SOCIOLOGIA?

Por Lucas Martins

Sociologia é a ciência que estuda o convívio entre as pessoas em grupos, associações, comunidades, etc, em vários tamanhos de “rede social”: desde uma pequena família, até grandes grupos étnicos, religiosos, etc. É a criação de teorias baseadas no cotidiano, em coisas que acontecem muitas vezes, as vezes de forma padronizada, mesmo em sociedades completamente diferentes.


Os sociólogos utilizam as estatísticas como método de estudo, e a partir delas, descrever o comportamento da sociedade perante a determinado assunto, e prever as consequências de uma mudança na forma como esse assunto é tratado por ela.


Muitas pessoas utilizam essa poderosa ferramenta, pois com ela é possível compreender a sociedade e poder manipulá-la mais facilmente, como é o caso de políticos, empresas de marketing, indústrias. Por exemplo, marketeiros tendem sempre a criar campanhas “virais”, ou seja, que tenham grande chance das pessoas discutirem a expandir de forma extremamente rápida o conhecimento da polulação sobre tal empresa/produto.


Existem vários objetos de estudo da sociologia: Sociologia da Arquitetura (como um grupo de pessoas se comportará em um ambiente, por exemplo, em um teatro), o Corpo (estudar as diferenças na interação entre pessoas com boa forma física e obesos), Criminologia (a razão dos crimes acontecerem, por fatores ou problemas sociais), a Família (estudando casos de divórcio, crianças órfãs), Sociologia da Imigração (o que faz um grupo de pessoas deixar o seu povo, para ir viver em um local com cultura completamente diferente?), política, etnias, demografia, e outras dezenas de tópicos.


Foi a primeira ciência social a se tornar matéria acadêmica, antes mesmo da antropologia, economia, política e psicologia.

Principais filósofos: Émile Durkheim, Karl Marx, Max Weber e Auguste Comte.

quarta-feira, 2 de março de 2011

DURKHEIM E A SOCIOLOGIA

Jéferson Mendes[1]
Émile Durkheim nasceu em Épinal, no dia 15 de abril de 1858, região da Alsácia, na França. Iniciando os estudos em Epinal posteriormente partindo para Paris, no Liceu Louis Le Grand e na École Normale Superiéure (1879). Considerado um dos pais da sociologia moderna. Durkheim formou-se em Filosofia onde começou a interessar-se pelos estudos sociais.
Foi o fundador da escola francesa de sociologia, em 1887 quando é nomeado professor de padagogia e de ciência social na faculdade de Bordeaux, no sul da França. Suas principais obras são: Da divisão social do trabalho (1893); Regras do método sociológico (1895); O suicídio (1897); As formas elementares de vida religiosa (1912). Fundou também a revista L’Année Sociologique, que afirmou a preeminência durkheimiana no mundo inteiro. Durkheim morre em Paris, a 15 de novembro de 1917.

O fato social

Durkheim parte da idéia de que o indivíduo é produto da sociedade. Como cita Aron, “[...] o indivíduo nasce da sociedade, e não a sociedade nasce do indivíduo” (2003, p. 464). Logo, a sociedade tem precedente lógico sobre o indivíduo. Durkheim definiu como objetivo da sociologia o fato social, o entende como fato social, “[...] todos os fenômenos que se dão no interior da sociedade, por menos que apresentem, com certa generalidade, algum interesse social” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Porém, dessa maneira poderíamos ver todos os acontecimentos como sendo um fato social, pois como Durkheim “[...] todo o indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que essas funções se exerçam regularmente” (DURKHEIM, 1999, p. 1). Logo, se considerarmos esses objetos como sendo fatos sociais a sociologia perde o seu domínio próprio. Assim, “[...] só há fato social quando existe uma organização definida” (DURKHEIM, 1999, p. 4), como regras jurídicas, dogmas religiosos, morais, etc.
Dessa maneira, fato social, é,
[...] toda maneira de fazer, fixado ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais. (DURKHEIM, 1999, p. 13).
Para Durkheim o modo como o homem age está sempre condicionado pela sociedade, logo a sociedade é que explica o indivíduo, as formas de agir apresentam um tríplice caráter: são exteriores (provem da sociedade e não do indivíduo); são coercitivos (impostas pela sociedade ao indivíduo); e, objetivas (têm uma existência independente do indivíduo). Portanto, os fatos sociais são exteriores, coercitivos e objetivos.
A primeira regra fundamental é considerar os fatos sociais como coisas. Durkheim define coisas dizendo que “[...] as coisas sociais só se realizam através dos homens; elas são um produto da atividade humana” (DURKHEIM, 1999, p. 18). Assim,
É preciso portanto considerar os fenômenos sociais em si mesmos, separados dos sujeitos conscientes que os concebem; é preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, pois é nessa qualidade que eles se apresentam a nós. (DURKHEIM, 1999, p. 28).
Durkheim entende que Spencer e Comte declararam que os fatos sociais, são fatos naturais, porém não trabalharam os fatos sociais como coisas. Logo, para Durkheim a primeira regra é considerar os fatos sociais como coisas.[2] Dentro do pensamento positivista, deve-se eliminar completamente a influência dos fatos subjetivos e individuais, dessa maneira garantiria a imparcialidade e a neutralidade, portanto esse é o motivo de considerar o fato social como “coisas”.[3]
Em relação a este método, cabe assinalar duas coisas. Em primeiro lugar, que Durkheim compara a sociedade a um “corpo vivo” em que cada órgão cumpre uma função. Daí o nome de metodologia funcionalista para seu método de análise. Em segundo lugar, como se repete novamente a idéia de que o todo predomina sobre as partes. Para Durkheim, isso implica afirmar que a parte (os fatos sociais) existe em função do todo (a sociedade). (SELL, 2001, p. 136).
Assim, Durkheim procura identificar a vida social do indivíduo de acordo com a sociedade, e, que a sociedade possui um papel fundamental na vida social do indivíduo, esse holismo, holoiós, que em grego significa “todo”, assim que “[...] o todo predomina sobre as partes” (SELL, 2001, p. 130).

O suicídio

O suicídio como problema contemporâneo atravessa civilizações, nações passam por problemas, as pessoas sofrem de depressão e vêem como última alternativa o suicídio.[4] Ato improvável e indireto. O ser humano é um ser suicida. Duvido de seis bilhões de seres humanos na terra, qual não pensou em suicídio.[5]
Uma pessoa que está existencialmente insegura sobre seus diversos eus, ou se os outros realmente existem, ou se o que é realmente percebido existe, pode ser inteiramente incapaz de habitar o mesmo universo social como os outros seres humanos. (GIDDENS, 1991, P. 96).
O sentimento de culpa, a sensação de desconforto, afastamento emocional, perda de um familiar, qualquer fator que acarrete o ego como vítima, leva pessoas comuns a pensamentos levianos, na realidade não passa de um pensamento muitas vezes mecânico, onde a pessoa autoflagela seu inconsciente, levando ao desapego corporal a única tentativa de retaliação. Também, “[...] a presença de depressão, alcoolismo ou de dependência de drogas (geralmente drogas prescritas) como um fator de maioria dos casos. Aproximadamente um terço sofria de doença terminal ou de um distúrbio clinico crônico grave” (TOWNSEND, 2002, p. 642).
Alguns fatos curiosos, os protestantes têm mais probabilidades de se tornarem suicidas do que os católicos e os judeus; indivíduos de classe alta e baixa têm mais tendência a se tornarem suicidas do que indivíduos de classe média; com relação à ocupação funcional, o índice de suicídios é maior em médicos, músicos, dentistas, oficiais da lei, advogados e corretores de seguro do que na população geral. [6]
Sigmund Freud entendia o suicídio como a raiva que um indivíduo sentia por si mesmo, visto como um desejo reprimido antes de matar uma pessoa, um ato agressivo ao eu. Ghosh e Victor identificaram a desesperança como fator central que predispõe o indivíduo ao suicídio. Hendin identificou o desespero como fator preponderante.[7]
Emili Durkheim preocupou-se com o fato do suicídio na Europa, pesquisou o que ele considerou com sendo um fato social, estudou de forma concisa, propondo questões e elaborando sérias diferenças quanto ao suicídio. Durkheim entendia que o suicídio possui causas sociais. Segundo ele, “É nos grandes centros industriais que os crimes e os suicídios são mais numerosos [...]” (DURKHEIM, 1999, p. 15).
O que é comum a todas as formas possíveis dessa renuncia suprema é que o ato que a consagra seja completado com conhecimento de causa; que a vitima, no momento de agir, saiba o que deve resultar de sua conduta, qualquer que seja a razão que a haja levado a se conduzir dessa maneira. [...] Chama-se de suicídio todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vitima e que ela sabia que deveria produzir esse resultado. (DURKHEIM, 1984, p. 103)
O suicida sabe o que vai acontecer, como ira lesar o seu ato, qual será o resultado de sua ação. Durkheim procura explicar que o suicídio além de uma causa psicológica, psicopatológica ou mesmo causa de imitação, também possui causa social. Durkheim distingue 3 tipos de suicídio:
  • suicídio egoísta: quando o indivíduo não está integrado à instituição, sente separado da sociedade, distante das correntes sociais. Não existe integração o indivíduo não se sente parte integrante do grupo ou redes sociais que regulam as ações e imprimem disciplina e ordem (família, religião, trabalho, etc.), os indivíduos apresentam desejos que não podem satisfazer-se. Quando esse egoísmo acaba frustrando-se leva as ondas sociais de suicídio. Também pode aparecer quando a pessoa se desvincula das redes sociais, sofrendo de depressão, melancolia, e outros sentimentos.
  • suicídio altruísta: é o oposto do suicídio egoísta, o suicida altruísta se revela quando o indivíduo se identifica com uma causa nobre, com a coletividade, essa identificação deve ser tão intensa que este acaba renegando a própria vida pela sua identificação. Está excessivamente integrado ao grupo, frequentemente está regulada por laços culturais, religiosos ou políticos, essa integração acaba sendo tão forte que o indivíduo acaba sacrificando sua própria vida em favor do grupo (Mártires, Kamikases, etc.).
  • suicídio anômico: deve-se a um desregramento social, ocorre depois da mudança na vida de um indivíduo (ex: divórcio, perda de emprego), o que desorganiza os sentimentos de relação com o grupo em que não existem normas ou estas perderam o sentido. Quando os laços que prendem os indivíduos aos grupos se afrouxam.
O que Durkheim deixa claro nos tipos de suicídio estudados é a relação indivíduo-sociedade, o suicídio ocorre tanto pela falta da ação do indivíduo em determinada sociedade como pela pressão que está sociedade acarreta sobre ele. Adam Smith considerado o fundador da economia, século anteriores entendia que havia duas ações que levariam os homens a ampliar seus talentos, a busca de estima e o medo de desaprovação, talvez a falta do primeiro e a excessividade no segundo levaria a uma generalização do ego e tornaria frutífero o pensamento leviano nas pessoas. Porém, as causas do suicídio segundo Durkheim sempre são sociais. Durkheim considerava o crime como um fato social normal, já “[...] o suicídio era para ele um fato social patológico que evidenciava que havia profundas disfunções na sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 146).

Da divisão do trabalho social

Os efeitos gerados pela Revolução Industrial eram assuntos pertinentes a diversos autores do século XIX e XX, Durkheim para explicar a modernidade busca o conceito de “divisão do trabalho social”, assim buscava identificar a formação de um novo método de trabalho ativava a fragmentação social, assim ocorreria o surgimento de esferas sociais. Logo, para Durkheim a divisão de tarefas também passa ser fonte de relação e interação social.[8] Porém,
Mas a divisão do trabalho não é específica do mundo econômico: podemos observar sua influência crescente nas regiões mais diferentes da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas. Estamos longe do tempo em que filosofia era a ciência única; ela fragmentou-se numa multidão de disciplinas especiais, cada uma das quais tem seu objeto, seu método, seu espírito. (DURKHEIM, 1999, p. 2).
Assim, Durkheim identificava que a divisão do trabalho não se dava apenas pelo processo econômico, mas também em outras organizações, como nas funções artísticas, administrativas e políticas. Durkheim inicia discutindo qual é a função da divisão do trabalho. A divisão do trabalho tem como objetivo principal tornar a civilização possível, caso não fosse estaria tornando a moralidade neutra.[9]
Durkheim citando Heráclito a respeito das diferenças no qual entendia que a discórdia é o principio do de todo devir. Assim, parte da divisão em outras categorias, que “A dessemelhança, como a semelhança, pode ser uma causa de atração mutua” (DURKHEIM, 1999, p. 20). Logo, procuramos em nossos amigos as qualidades que nos faltam, que o homem e a mulher possuem suas diferenças, logo tanto a divisão do trabalho determina a relação de amizade, como a divisão do trabalho sexual é a fonte da solidariedade conjugal. [10]
Primeiramente é necessário buscar se existe uma solidariedade social que esteja sendo proveniente da divisão do trabalho. Dessa forma, é necessário determinar a solidariedade que ela produz interfere na integração da sociedade, assim para perceber até que ponto essa solidariedade é necessário.[11]
A solidariedade social, porém, é um fenômeno totalmente moral, que, por si, não se presta à observação exata, nem, sobretudo, a medida. Para proceder tanto a essa classificação quanto a essa comparação, é necessário, portanto, substituir o fato interno que nos escapa por um fato externo que o simbolize e estudar o primeiro através do segundo. (DURKHEIM, 1999, p. 31).
A solidariedade social, quando forte entre os homens inclina-os, colocando-os reciprocamente em contínuo contato, relacionando-se constantemente. Assim, quanto mais os membros da sociedade são solidários, mais eles mantêm relações uns com os outros, caso não mantessem contatos constantemente suas relações e mesmo sua dependência seria menor.[12] O que existe e vive realmente são as formas particulares de solidariedades, a solidariedade doméstica, a solidariedade profissional, a solidariedade nacional, etc. e esse estudo da solidariedade pertence ao estudo da sociologia, é um fato social que só pode ser conhecido através do estudo de seus efeitos sociais.[13] O direito que apresenta as formas essenciais de solidariedade social, dessa forma é necessário classificar as diferentes formas de direito para poder classificar as diferentes formas de solidariedade social. A principal idéia de direito é aquela que o divide em direito público e direito privado, o público regula as relações entre os indivíduos e o Estado, e o privado o indivíduo entre si. Porém, todo o direito é público, da mesma forma que todo o direito também passa a ser privado.[14]
Há dois tipos de sanções. Umas consistem essencialmente numa dor, ou, pelo menos, numa diminuição infligida ao agente; elas têm por objeto atingi-lo em sua fortuna, ou em sua honra, ou em sua vida, ou em sua liberdade, privá-lo de algo de que desfruta. Diz-se que são repressivas – é o caso do direito penal. É verdade que as que se prendem às regras puramente morais têm o mesmo caráter, só que são distribuídas de uma maneira difusa por todo o mundo indistintamente, enquanto as do direito penal são aplicadas apenas por intermédio de um órgão definido: elas são organizadas. Quanto ao outro tipo, ele não implica necessariamente um sofrimento do agente, mas consiste apenas na reparação das coisas, no restabelecimento das relações perturbadas sob sua forma normal, quer o ato incriminado seja reconduzido à força ao tipo de que desviou, quer seja anulado, isto é, privado de todo e qualquer valor social. Portanto, devemos dividir em duas grandes espécies as regras jurídicas, conforme tenham sanções repressivas organizadas ou sanções apenas restitutivas. A primeira compreende todo o direito penal; a segunda, o direito civil, o direito comercial, o direito processual, o direito administrativo e constitucional, fazendo-se abstração das regras penais que se podem encontrar aí. (DURKHEIM, 1999, p. 37).
Portanto, para entender a classificação da solidariedade, Durkheim parte do entendimento da necessidade de se entender as formas de direito que são estendidas em dada sociedade, se és aplicado o direito restitutivo ou o direito repressivo. Além de sua grande tese de doutorado, Da Divisão do Trabalho Social, também mostra a influência positivista. Durkheim entende que a sociedade passa por um determinado processo de evolução, essa evolução que está sendo provocada pela diferenciação social. Ocorrendo que a primeira etapa desse processo de evolução social Durkheim chamou de “sociedade de solidariedade mecânica”, já o que se refere à etapa final de “sociedade de solidariedade orgânica”. Assim, organiza da seguinte forma os dois tipos de sociedade.
Sociedade de solidariedade mecânica
Sociedade de solidariedade orgânica
Laço de solidariedade
Consciência coletiva
Divisão do trabalho social
Organização social
Sociedade segmentada
Sociedades diferenciadas
Tipo de direito
Direito repressivo
Direito restitutivo

Sociedade de solidariedade mecânica

A sociedade de solidariedade mecânica é na verdade um mecanismo de interação dos indivíduos nos grupos ou nas instituições sociais. Da mesma forma, acaba sendo representada pelas diferentes formas de organização na sociedade, segmentada ou diferenciada, também os tipos de direito, se este se baseia no princípio do direito repressivo ou restitutivo.
O vínculo de solidariedade social a que corresponde o direito repressivo é aquele cuja ruptura constitui o crime. Chamamos por esse nome todo ato que, num grau qualquer, determina contra seu autor essa reação característica a que chamamos pena. Procurar qual é esse vínculo é, portanto, perguntar-se qual a causa da pena, ou, mais claramente, em que consiste essencialmente o crime. (DURKHEIM, 1999, P. 39).
Dessa forma, Durkheim inicia trabalhando a diferença da sociedade de solidariedade pela pena, ou melhor, pelo crime que cada sociedade comete dessa maneira como o crime é dado como restituição do ato cometido. Assim “São todos os crimes, isto é, atos reprimidos por castigos definidos” (DURKHEIM, 1999, p. 40).
Nas sociedades de solidariedade mecânica os indivíduos vivem em comum porque partilham da consciência coletiva, assim partilham dos pensamentos em conjunto, elaboram a sua vida através da vida dos outros em praticamente todas as ações “[...] a sociedade inteira participa numa medida mais ou menos vasta” (DURKHEIM, 1999, p. 4).
Os indivíduos se assemelham muito existindo poucas diferenças entre eles, logo se assemelham pelos mesmos gostos, sentimentos, valores e reconhecem nos objetos as mesmas representações do sagrado, assim a semelhanças é enfim o ponto de fundamentação.[15] Portanto, “Nas sociedades dominadas pela solidariedade mecânica, a consciência coletiva abrange a maior parte das consciências individuais”. (ARON, 2003, p. 463).
Durkheim define a vida coletiva como “[...] um conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade, que forma um sistema determinado que possui vida própria” (DURKHEIM, 1995, p. 50). Logo, esse laço de solidariedade forma a consciência coletiva.
Nas sociedades primitivas, cada indivíduo é o que são os outros; na consciência de cada um predominam, em número e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos. (ARON, 2003, p. 459).
O grupo na sociedade de solidariedade mecânica prevalece, possui mais eqüidade, aparece mais, logo tem predomínio sobre o indivíduo. O indivíduo não possui relação com o mundo exterior. Logo, são tão semelhantes que pouco se caracterizam como diferenciais, abrindo poucos intervalos para individualidades. Os indivíduos comungam entre si, vivem a comunidade fazendo-se interações, como por exemplo, as sociedades indígenas.
Porém, como fazer transparecer isso,
[...] Durkheim, optou pelo estudo das normas jurídicas que, segundo ele, são um dos meios pelo qual a sociedade materializa (ou torna concreta) suas convicções morais, que são um dos elementos da consciência coletiva. De acordo com a forma pelo qual ele é organizado, o direito é o símbolo visível do tipo de solidariedade que existe na sociedade. Assim, nas sociedades de solidariedade mecânica temos o predomínio do direito repressivo, [...] o predomínio da punição. De acordo com a explicação de Durkheim, isto mostra a força da consciência coletiva sobre a vida dos indivíduos. (SELL, 2001, p. 140-41).
Assim, as normas jurídicas representam de certa forma a sociedade em que vivemos, repressiva ou restitutiva. Nas sociedades de solidariedade mecânica as punições são dadas aos indivíduos e estes não podem dela fugir ou mesmo fazerem-se livres, pois a punição faz com que a sociedade de coesão e não se danifique, logo não se admite violação das regras sociais. “Quanto mais forte a consciência coletiva, maior a indignação com o crime, isto é, contra a violação do imperativo social”. (ARON, 2003, p. 463). A punição não passa de uma lição aos outros indivíduos para que não façam o mesmo.
A organização social da sociedade de solidariedade mecânica é uma sociedade segmentada, da qual há a existência de poucas mudanças, onde os grupos vivem isolados, “[...] com um sistema social que tem vida própria” (SELL, 2001, p. 141). Logo, a manifestação com o exterior é escassa pelo fato que a sociedade sustenta-se por si mesmo. Assim, Durkheim as vê como as sociedades antigas.
É possível a existência de um grande número de clãs, tribos ou grupos regionalmente autônomos, justapostos e talvez até mesmo sujeitos a uma autoridade central, sem que a coerência por semelhança do segmento seja quebrada, sem que se opere, no nível da sociedade global, a diferenciação das funções características da solidariedade mecânica. (ARON, 2003, 461).
Assim as sociedades de solidariedade mecânica estão pouco passíveis de mudanças, geralmente encontram-se estagnadas, a diferenciação é dificultada, pois o enraizamento social está determinado, e, segue-se em etapas.

Sociedade de solidariedade orgânica

Nas sociedades de solidariedade orgânica os laços de solidariedade exigem a divisão do trabalho social, o tipo de organização social é de uma sociedade diferenciada, também o tipo de direito, diferente da sociedade de solidariedade mecânica, deve ser restitutivo. Durkheim vê como uma lei na história a passagem da sociedade de solidariedade mecânica para a sociedade de solidariedade orgânica.
É, pois, uma lei da história a de que a solidariedade mecânica, que, a princípio, é única ou quase, perde terreno progressivamente e que a solidariedade orgânica se torno pouco a pouco preponderante. Mas quando a maneira como os homens são solidários se modifica, a estrutura das sociedades não pode deixar de mudar. A forma de um corpo se transforma necessariamente quando as afinidades moleculares não são mais as mesmas. Por conseguinte, se a proposição precedente é exata, deve haver dois tipos sociais que correspondem a essas duas sortes de solidariedade. (DURKHEIM, 1999, 17).
A atividade é mais coletiva, os indivíduos dependem uns dos outros, devido à especialização de funções ou mesmo a divisão do trabalho social. Demonstra que nas sociedades ditas modernas as sociedades são altamente desenvolvidas e diferenciadas, assim cada indivíduo exerce funções diferenciadas.
Na realidade o que leva as pessoas a interarem-se é mesmo o progresso dos meios da especialização das funções que os indivíduos exercem entre si, ou mesmo em conjunto, logo os indivíduos acabam se tornando independentes das atividades em diferentes setores da vida social.
Como conclusão, Durkheim afirma que a divisão do trabalho social não pode ser reduzida apenas a sua dimensão econômica, no sentido de que ela seria responsável pelo aumento da produção, sendo está a sua função primordial. Ao contrário, a divisão trabalho social tem antes de tudo uma função moral, no sentido de que ela passa a ser o elemento chave para a integração dos indivíduos na sociedade. (SELL, 2001, 144).
Dessa maneira Durkheim entende que a verdadeira função da divisão do trabalho social possui como fator principal o sentimento de solidariedade entre os indivíduos de determinada sociedade. Porém, com a crescente diversificação das funções, cresce também o sentimento de individualidade entre os indivíduos, a consciência coletiva acaba perdendo seu papel de interação social. Portanto, os “[...] efeitos produzidos pela divisão do trabalho, contribuindo para manter o equilíbrio da sociedade” (DURKHEIM, 1999, p.223). Quanto mais o trabalho for dividido, maior rendimento terá.[16]
Mas, se a divisão do trabalho produz a solidariedade, não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um “trocador”, como dizem os economistas; é que ela cria entre os homens todo um sistema de direitos e deveres que os ligam uns aos outros de maneira duradoura. (DURKEHIM, 1999, P. 429).
Com a suposta desestruturação coletiva ocorrem duas funções de interesses comuns, uma seria a autonomização dos indivíduos que elaborariam mais as suas tarefas, e se enquadrariam em seus desejos e anseios sociais, a segunda questão seria que essa autonomização do indivíduo também levaria a um egoísmo sem precedente, os próprios indivíduos entrariam em choque com eles mesmo, assim, “Temos uma divisão anômica do trabalho que, para Durkheim, era o grande problema da sociedade moderna” (SELL, 2001, p. 145).
Seguindo a lógica desenvolvimentista, Durkheim vê a mudança de sociedade como um processo gradual, que através da diferenciação social, ela iria evoluindo, entendendo que haveria três fatores para o desenvolvimento da sociedade.
  • Volume
  • Densidade material
  • Densidade moral
Assim, o volume caracterizaria como um suposto aumento do número de indivíduos de determinada sociedade, para que ocorra a diferenciação é preciso acrescentar a densidade, tanto à densidade moral quanto a material, a densidade moral, entraria nas comunicações e trocas que os indivíduos fazem entre si. Já a densidade material entraria no aspecto de indivíduos por porcentagem com relação à superfície do solo. Logo, quanto mais intenso for o relacionamento entre os indivíduos maior será a sua densidade. Assim, “[...] o crescimento quantitativo (volume) e qualitativo (densidade material e moral), ocorre na sociedade um processo de especialização das funções, chamado por Durkheim de divisão do trabalho social” (SELL, 2001, p. 143).


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