sexta-feira, 18 de março de 2011

REVOLTA SOCIAL EM PORTO VELHO


Desde seu licenciamento que a obra das Usinas do Madeira mostra ter um caráter sonso. Os fatos gerados em torno do empreendimento são sempre confusos e indefinidos no geral.
Uma suspeita atrás da outra tem sido levantada a respeito das mortes acontecidas no canteiro da obra e que não vejo reportada por ninguém. Outra coisa nebulosa é a natureza dos tratos contratuais realizados com os peões, a respeito de salário e vencimentos. Muita gente se queixa de que dizem uma coisa e fazem outra.
Nomes de empresas como Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht e Camargo Correia se carimbados na Carteira Profissional, é razão de orgulho pra qualquer peão de trecho - como eu já fui. E estas empresas, cujos padrões de excelência as levaram para a realização de obras no exterior, estão aqui. Como é que, de repente há uma bagunça dessas? Não haverá uma política da empresa para o trato dos Recursos Humanos que seja boa para a peãozada? No sul do país não sabem direito nem onde fica Rondônia, se a capital é Rio Branco, se nos situamos perto da “Cabeça do Cachorro”... Será que, igualmente, erraram na política de recursos humanos a adotar para esta obra?
Será que o nome "Consórcio" é um modo de grandes empresas se escudarem, ou se esconderem, de parte de suas responsabilidades?
Essas comoções sociais não acontecem por influência bandida, não. Mas, muitas vezes elas podem e são aproveitadas por bandidos infiltrados na leva que vem trabalhar na obra. Eles se aproveitam da massa descontente para sugerir as ações de pilhagem que lhes permita "colher" os frutos. Não tem esconderijo melhor para quem está bandido mesmo do que no meio de uma massa revoltada, descontente. Mas, eles não geram o descontentamento da massa. Isso não. Isso é contra toda a Ciência Social formada e provada, cientificamente, em torno de fenômenos assim. O procedimento das empresas, desde a divulgação das primeiras vagas para contratação, é sonso. Nas fachadas dos seus escritórios não há placas indicativas da empresa em questão, não há divulgação de telefones comuns para acesso a informações, e todo o acesso ao canteiro de obra para qualquer outro fim que não seja o trabalho, é rigorosamente controlado.
Cientista social que sou, enxergo, nesse episódio dado em Jirau, um erro administrativo grave no procedimento das empresas por trás do "Consórcio", que gerou o descontentamento de um contingente social considerável. Contingente esse que está recluso nos limites da obra, lugar em que não há sequer um arremedo de instituições sociais para atenderem as necessidades fundamentais da pessoa humana – mesmo sendo em Rondônia – que são: moradia, alimentação, educação, saúde e segurança, já que o trabalho está garantido.
As autoridades estaduais e municipais envolvidas estão omissas desde o princípio dessa história quando validaram os documentos sobre Impacto Ambiental - EIA e RIMA - apresentados pelo Consórcio, para o que a comunidade acadêmica e outros estudiosos haviam torcido o nariz. Ficaram omissas ao longo do tempo em que ocorreram estes fatos – que não são de hoje. E, hoje, estão imersas em estupor diante deles.
Precisamos das Usinas do Madeira? Sim, sem dúvidas. Mas elas não têm de ser construídas sobre mortes acidentais não legitimadas por registro oficial, nem baseados em contratos que estabelecem o vilipêndio em vez de justiça.
Há atos criminosos a investigar, sim. Há bandidos para serem presos, sim. Mas, há alguns dentre eles que nem sequer estão nas ruas mas que estão nas nascentes desta revolta. 

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