segunda-feira, 11 de abril de 2011

Drama em Realengo no dia 7 de abril de 2011


Conforme dados coletados em saites da internete, no dia 07 de abril, quinta-feira, por volta das 8h, Wellington Menezes de Oliveira, rapaz de 23 anos entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo-Rio de Janeiro, e matou doze crianças, deixando onze feridas e 10 outras internadas em hospitais. Detido por policiais, ainda durante o atentado, cometeu suicídio após ser ferido.
Estupor. Pânico. Incompreensão generalizada.
Em meio ao desespero, dor, revolta e grande clamor estabelecidos as respostas trazidas pela mídia jornalística são muito pobres. A tecnologia em mãos da mídia é capaz de mostrar o sangue borbulhando da ferida em espetaculares coberturas, mas, tem se mostrado incapaz de achar alguém com uma resposta satisfatória do “por quê” de uma coisa dessas, com a mesma velocidade em que faz a exibição. Informar sem refletir satisfatoriamente é perigosamente cruel. A sociedade, como um grupo social que é, precisa de tempo para processar e responder. A mídia, ao informar, faz o corpo social tomar ciência do fato, mas ao estender a informação incessantemente por três dias produz uma impressão de continuidade como se o drama não tivesse acabado! Quem vê a notícia desde o primeiro momento pode acabar levando uma carga danosa ao seu tecido emocional. Não se pode contribuir para estabelecer a sensatez se não permitirmos que a reflexão acomode o fato nos espaços possíveis da compreensão. E, certamente, o repisar dos fatos em improvisadas e sucessivas intervenções ao vivo não ajuda em nada.
Ainda assim, contudo, a sociedade ferida foi capaz de, apenas dois dias depois, se unir para abraçar simbolicamente a Escola, homenagear mortos, feridos e de fazer orações. Isto é o primeiro sinal da compreensão, mostra o pensamento social apurando o foco ao isentar a instituição escolar de responsabilidades. O muro da escola, transformado em altar votivo, com flores, velas, fotos e mensagens para as vítimas, é prova disso. Algumas famílias, as mais serenas, sinalizaram um exemplo de mais ampla superação pela solidariedade com que doaram os órgãos dos mortos na tragédia. Muito embora ao lado destas manifestações tivéssemos a pichação da casa dos familiares do infeliz rapaz, autor da tragédia, o saldo é bem positivo, pois mostra o direcionamento das ações no sentido do bem social pelo bem que se restabelece, aos poucos, nas famílias.

Para amorosos pais e mães, parentes e amigos das crianças atingidas, será impossível encontrar agora uma palavra de consolo que lhes acalme o coração. Porque o processo desta dor, que nasce da punhalada no peito amado, caminha pela estrada da mágoa desde aí até a compreensão cicatrizá-la misteriosamente no nosso peito. Aí, a dor abandona a mágoa e sua trilha espinhosa para a resignação consoladora dentro da qual até poderá evoluir para o conforto do perdão – algo para o que a alma demanda um tempo.
As almas maltratadas por tragédias tão fortes assim demandam de nós ações solidárias, mas muito mais gestuais do que de outra natureza. É aquele “estar junto”, aquele segurar a mão amiga e enxugar a mágoa do coração ferido com o próprio coração. Lembro-lhe, querido leitor, de uma situação onde um homem absolutamente reto e inocente viu, igualmente, o mundo desabar sobre si. De uma só vez ele recebeu a notícia do trucidamento de sua família querida e da espoliação de todos os seus bens materiais. E, ainda quedado sob este grande estupor, perde totalmente sua saúde. Então, desnorteado sob tamanha aflição ele recebeu o apoio de três amigos sinceros que a ele acorreram tão logo souberam do mal. Tratam-se de Elifaz, Bildad e Zofar os bíblicos amigos de Job que, quando viram o estado dele, “não o conheceram; e levantaram a sua voz e choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao ar. E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande”. (Job 2-12;13)

Contudo, é preciso confiar.
É preciso confiar na vida como uma obra perfeita, mas daquela perfeição possível às coisas em permanente construção.
É preciso lembrar que o tempo a tudo explica satisfatoriamente, fato que exige de cada um de nós nos segurarmos, embora aflitos, nos limites escuros da ignorância em que ainda estamos a respeito deste fato, sobre o qual não houve tempo para se fazer a luz para o entendimento libertador.
É preciso entender e louvar os valores de D. Dicéa que foi capaz de acolher um menino doente, filho de mãe doente, e ajudá-lo a construir-se socialmente, sustentando-o até sua morte. Tendo ela, inclusive, encaminhado o rapaz com transtorno bipolar ao tratamento – que poderia auxilia-lo na manutenção de um mínimo de saúde – ao qual ele abandona por livre vontade.
É preciso admitir que a sociedade é feita pelos que não carecem de nada e pelos que precisam de ajuda; pelos que auxiliam e pelos que não o fazem; pelos que consentem ser ajudados e pelos que se negam a receber socorro; porque o arbítrio conquistado pela humanidade faz cada um conforme sua escolha.
É preciso aceitar que nossa sociedade é feita dos melhores como também dos piores, mas que a grande maioria dela não é nem melhor nem pior. Porque o grosso da humanidade é um contingente limitado pela angelitude de um lado e pela satanice de outro. O primeiro limite é o patamar para onde o tropismo do Bem nos leva pela evolução e, o segundo limite, é tudo o que precisamos descartar para nos configurarmos na angelitude.
É preciso decidir-se pelo Bem, enquanto pessoa, para que esta adoção se generalize e configure o Bem como característica do corpo social que formamos. E o Bem nunca poderá ser algo que só faz bem a mim, será sempre algo comunal, nem que a comunidade seja só de duas pessoas.
É preciso não perder de vista que, o mal que nos acontece é resposta de ações do nosso passado e, por vezes, de um passado tão remoto que não lembramos, mas, do qual não deixamos de ser responsáveis. Por isso, então, é preciso construir este presente sem nenhuma eiva deste mal que feriu tanto a tantos, direta ou indiretamente.
Neste instante, se não pudermos sepultar este mal sob a laje do perdão, pelo menos o isolemos em compartimento seguro para uma consideração posterior porque, corações magoados clamam por “justiça” quando na verdade querem dizer “vingança”. É revolta pura e simples. É a revolta perfeitamente explicável dos corações feridos. É o sentimento que nos enche de fel e nos faz desejar apenas “olho por olho, dente por dente”.
A revolta não tem juízo. Ela é tão impiedosa quanto o assassínio. A revolta não tem misericórdia porque só contempla a extensão de um lado da miséria. Há muitas mães de filhos assassinados que se consideram miseráveis pelo que lhes aconteceu, mas que sentimento terá a amorosa mãe de um filho assassino? Neste caso de Realengo é preciso considerar a miséria da mãe, a falecida D. Dicéa – que não pode acompanhar mais tempo o seu filho adotivo; a miséria dos familiares de Wellington – que se escondem medrosos e envergonhados de dizerem que o são; e, por fim, a miséria do próprio Wellington cujo corpo, até sábado, dia nove, ninguém reclamara para sepultamento.
Tomemos tento, queridos amigos.
Estendamos nossa misericórdia.
Dilatemos nosso coração porque, neste “vale de lágrimas” não há um só de nós que possa dizer que dela não precisa.

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